13/11/07 - Relâmpago no céu se alimenta do subsolo - Humberto Márquez
Fonte: Site–Portal do Meio Ambiente.

 

O relâmpago de Catatumbo, no extremo norte da América do sul, é um dos maiores regeneradores naturais do ozônio que protege a vida terrestre dos raios solares que fazem mal à saúde.


CONGO MIRADOR, Venezuela

Um fogaréu vermelho, amarelo e laranja ilumina um pedaço do céu e do Lago de Maracaibo, na Venezuela, e uma fração de segundo depois raios de um branco incandescente viajam da esquerda para a direita e vice-versa, entre nuvens recortadas como silhuetas obscuras. Segundos depois o fenômeno se repete com outros tons e intensidade e novas formas de nuvens, até por horas, com um distante e surdo barulho de trovão, até que as carregadas nuvens cessam o jogo pirotécnico e tem lugar uma tempestade convencional. Chove. É um dilúvio que dura seis horas.

O relâmpago de Catatumbo – sobre o delta do rio de mesmo nome, que nasce no nordeste da Colômbia e desemboca entre pântanos e lagoas no Lago de Maracaibo, oeste da Venezuela – é uma tempestade elétrica entre nuvens, vinculada a uma permanente baixa pressão na área, rica no metano que se incendeia e resplandece. “Este é o lugar do mundo com maior média de tempo de tempestades elétricas por ano”, disse ao Terramérica o ambientalista venezuelano Eric Quiroga, promotor do Dia Internacional da Preservação da Camada de Ozônio, em 16 de setembro.
As descargas elétricas nuvem-terra têm uma intensidade de 10 mil a 50 mil ampéres, e as de nuvem para nuvem entre 100 mil e 300 mil. “Cada relâmpago poderia acender as lâmpadas da América do Sul. Uma média de 1,6 milhão de relâmpagos anuais e uma intensidade média de 150 mil ampéres fazem do Catatumbo a primeira fonte geradora de eletricidade de seu tipo no planeta”, afirma Quiroga. É o resplendor que se observa ao cair a noite, desde Puerto Concha até Ologá e Congo Mirador, pequenos povoados de palafitas no tórrido sul do Lago, por instantes um espelho de luz.
De onde sai o metano para tais incêndios? Durante anos predominou a tese de que emanava da decomposição de matéria orgânica produzida pelas torrenciais chuvas na zona sul da bacia do Lago, cerca de 600 quilômetros a sudoeste de Caracas, onde se chocam ventos alísios do nordeste e sudoeste. Porém, o pesquisador Angel Muñoz, da regional Universidade de Zulia, presume a existência de querógeno (mistura de compostos orgânicos que impregnam rochas e outros sedimentos) no subsolo das lagoas de águas escuras entre os vizinhos rios Bravo e Catatumbo.
“O substrato do Lago é rico em depósitos petrolíferos e compartilha com os mangues ribeirinhos a mesma história geológica. O acúmulo de metano na atmosfera poderia ser favorecido pelo vazamento deste gás por fissuras no manto rochoso através dos pântanos e lagoas”, afirma Muñoz. Isso explicaria o misterioso desaparecimento do relâmpago ou o aumento de sua freqüência e intensidade depois da ocorrência de sismos na região.
O relâmpago “nasce acima da Lagoa La Estrella, de águas escuras, um pouco a oeste daqui. Lá é onde melhor se vê nas noites de verão de céu claro”, afirma o mais velho habitante de Congo Mirador, José del Carmen Guerrero, pescador e, aos 79 anos, ainda ativista comunitário. Sua mulher, Maria Díaz, de 65 anos, conta que “quando eu era jovem o relâmpago era visto maior e mais forte. Penso que diminuiu”.
Quiroga diz que “talvez as emissões de metano tenham variado”, e a intensidade sobre as lagoas escuras se explica porque “essas águas absorvem maior quantidade de energia, e este lado sul do Lago é um dos locais com maior irradiação solar no mundo; de dia a luminosidade dissolve o metano, mas de noite, sobre correntes de ar quente, sobe rapidamente até as nuvens altas”. Se o vapor de água vai às nuvens baixas para fabricar chuva, o metano sobe até sete ou oito quilômetros e, quando as partículas de gelo se ionizam nas enormes nuvens convectivas, ocorrem as descargas elétricas vistas, em certas ocasiões, a 400 quilômetros de distância, das ilhas no sul do Caribe.
“Estou muito orgulhoso. O relâmpago produz ozônio, e este nos mantém com vida em todo o planeta’, disse ao Terramérica Aléxis Vega, pescador de 49 anos, de pé sobre a fina faixa de areia entre o Lago e a Lagoa de Ologá, depois de lembrar as carências do povoado, paupérrimas casas de folhas de zinco, metade na costa, metade em palafitas. Quiroga retoma as explicações: “A mais de seis quilômetros de altitude, o relâmpago é uma fonte geradora de ozônio. Possivelmente o do Catatumbo seja a primeira fonte regeneradora de seu tipo no mundo”, embora as tempestades elétricas produzam apenas 10% do ozônio estratosférico que protege o planeta das radiações solares nocivas.
Orgulhoso também se exibe o relâmpago no escudo e na bandeira do petrolífero Estado de Zulia, a despeito da miséria dos “povos de água”, cerca de 800 habitantes de Congo Mirador, 200 de Ologá e dezenas de moradores em outras vilas. Os habitantes apresentam um rosário de queixas porque escasseiam luz elétrica, água potável, combustível, alimentos, assistência médica, educação formal e outros serviços e oportunidades, que alguns consideram desprezo governamental.
Cerca de 20 jovens artistas plásticos, participantes de um salão do Museu de Arte Contemporânea de Caracas, desafiaram, nos últimos dias de outubro e começo deste mês, as asperezas da intempérie para serem recompensados com a deslumbrante visão laranja, amarela e branca. Os indígenas wayúu, que observam o relâmpago do norte do Lago de 12 mil quilômetros quadrados, vêem nele os espíritos de seus mortos, cujas almas resplandecem. Para os bari, localizados no sudoeste do Lago e de cuja língua procedem palavras como Catatumbo e Zulia, o relâmpago concentra milhões de vaga-lumes que todas as noites se reúnem para render tributo aos pais da criação.


Reflorestamento não recupera diversidade amazônica, diz pesquisa

Uma pesquisa feita por uma universidade britânica e um museu brasileiro, divulgada nesta terça-feira, revela que o reflorestamento de florestas tropicais pode ser inútil na tentativa de conservar a biodiversidade dessas áreas.
No estudo, pesquisadores da Universidade de East Anglia e do museu Emílio Goeldi, de Belém (PA), analisaram quinze áreas de floresta no nordeste da Amazônia brasileira.
Os pesquisadores recolheram informações sobre animais e plantas em cinco florestas primárias (mata virgem), cinco secundárias (que crescem sobre áreas antes desmatadas) e cinco florestas de reflorestamento com árvores de eucalipto. Os resultados revelam que pelo menos 25% das espécies analisadas não foram encontradas fora da mata virgem. Segundo Jos Barlow, cientista que participou da pesquisa, "o estudo oferece o melhor cenário", já que as áreas de floresta secundária e reflorestamento analisadas ficam relativamente próximas de florestas primárias. "Muitas áreas de reflorestamento e florestas em regeneração (...) estão muito mais distantes de florestas primárias, e a vida selvagem pode não conseguir ressurgir nessas áreas." Esse foi o maior estudo já feito para analisar a conservação da biodiversidade nesses três tipos de florestas nos trópicos.
As florestas primárias servem de moradia natural para mais da metade das espécies terrestres do mundo. Carlos Peres, pesquisador que liderou o estudo, disse que a pesquisa deixa claro que é muito melhor preservar as florestas primárias do que realizar o reflorestamento das regiões devastadas.
"Desta forma, nós maximizamos a biodiversidade e o índice de carbono de áreas inteiras." Peres, porém, reconhece que "os projetos de reflorestamento podem cumprir um papel complementar em aumentar a população das espécies e gerenciar os espaços que já foram modificados pelo homem". A pesquisa também indica que as florestas de reflorestamento não são tão eficientes na absorção de dióxido de carbono da atmosfera, em comparação com as florestas primárias.